sexta-feira, 14 de junho de 2013

Pós-graduações, laptop cor de rosa e silicone: um pouco de mim.

Eu, realmente, com toda a sinceridade do mundo, nunca liguei para o que os outros achavam de mim, mas com o tempo e as pós-graduações, comecei a brinca um pouco com minhas contradições, com o propósito mesmo do choque social e da minha diversão pessoal.

Transito em dois mundos bem diferentes, sempre foi assim devido a boa situação financeira dos meus pais e o fato de eu ter escolhido uma profissão que geralmente classe média não escolhe, especialmente porque os pais não aceitam- tive muitos problemas em casa quando decidir ser professora.

Tenho amigos dos mais PSDBistas, aos mais PSOL, dos mais "alienados aos mais politizados", dos mais cults aos mais tô nem aí. Não me acho das mais politizadas, mas tenho plena convicção sempre que vou votar. Escolho sempre candidatos que acho que vai fazer alguma coisa pelos mais necessitados, porque acho que a minha vida é muito boa perto da vida da maioria e não preciso muito mais do que isso...

Ao mesmo tempo que meu mês nunca fecha no azul, porque embora meu discurso socialista, eu gasto sempre mais do que posso. Gosto de roupa, sapato, biju, bolsas, tratamento de beleza, todossss tratamentos possíveis. Meu cabelo é do mais caros, porque mantenho um loiro descolorido sem nenhum fio quebrado, e meus fios são muito fininhos, então é uma operação REDKEN diária. Além, disso gosto de comprar, sempre gostei, e não necessariamente pra mim. Compro pra todo mundo, adoro dá presente, fazer supermercado etc. Sempre preciso de tudo.

Mas não sou nada fresca. Fora o ar condicionado que nunca é desligado - odeio calor, mas eu pago a luz em casa - sou bem básica. Saiu sem maquiagem - mas nunca sem protetor -, me arrumo em minutos, uso óculos na boa - alias, tenho vários, costumo combinar com as roupas- , não gosto de salto e compro roupas em lojas populares do tipo C e A. Tenho uma única grande frescura obsessiva: o corpo perfeito, aliás o que seria perfeito pra mim. Para isso, ou quando isso começou, eu malhei, malhei muito, fiz tratamentos estéticos, usei muita cinta, até um dia reconhecer que precisava de uma lipo pra diminuir o quadril. Juntei a grana, dando muita aula de história nos interiores, discutindo muito marxismo, e fiz. Mas quanto melhor ficamos, mas obcecada nos tornamos pelo corpo perfeito.

Nas minhas duas gravidez eu chutei o pau da barraca. A gordinha dentro de mim falou mais alto. Mas 1 mês depois de parir os filhos a malhadora voltou a tona. Hoje eu sei que tive todos os filhos que queria ter, e só uma historiadora refinada e com muita classe colocaria o nome da filha de "Helena" de Tróia e do filho de "Ernesto" Guevara, contra tudo e todos. Depois dos pequenos exemplos do meu amor historiográfico vou fazer mais uma intervenção: silicone no peito. Cirurgia marcada, confirmada, paga. Eu não poderia estar mais feliz. Mereço um peito bonito depois de todos esses anos acordando de madrugada pra ir malhar, deixando filhos pequenos para não embarangar, usando cinta dia e noite pra barriga voltar pro lugar. Eu, a tatoo que vou fazer, minha autoestima, maridón e o mundo merecem uma Maíra turbinada, sou mais feliz e disposta assim.

O que a pós-graduação tem a ver com isso?? Sempre destoei muito dos alunos do meu curso, tanto na graduação como na pós. Fiz muitos amigos, mas só depois que eles me conheciam melhor, porque sempre pairava dúvida sobre : - O que essa loira que só fala em regime e malhação tá fazendo aqui? Participei recentemente de um Congresso em Letras, depois de professores de várias regiões terem apresentando seus trabalhos fui apresentar o meu. Salto alto, pantalonada fashion, laptop cor de rosa e narizes tortos pra mim, até eu abrir a boca e pega pressão falando sobre Modernismo, Engajamento Político, Anticomunismo, Experiência dos Literatos no comunismo, Imaginário Social, etc. Depois tive que escutar um grupo me dizendo: - Maíra, nós lemos muito tua dissertação e já tínhamos te imaginado de todas as formas... Eu completo, pra nós, não pra eles, "menos da forma como eu sou".

Sei que a busca da boa forma atrapalha minha vida acadêmica e vice-versa, tanto que ainda não estou completamente em forma pós-parida - tudo bem que fazem apenas 4 meses que pari - porque estou priorizando as disciplinas do doutorado, mas eu não sei ser de outra forma. Muitas vezes provoco situações, a do congresso poderia ser evitada, eu poderia ter ido com mais cara de professora como vou pra universidade onde trabalho, mas me divirto com os estereótipos criado pelas pessoas, e adoro não me enquadra neles.

Lembro de uma professora de matemática que deu aula comigo pela UVA em Santarém e que ficou muito feliz e espantada quando eu disse: -ei, não te preocupa, nao desliga a tv não, eu assisto BBB e amo. Meu marido muitas vezes já me pediu pra conversar sobre as coisas que estudo com os outros quando a gente saí, mas eu, sinceramente, acho muito pedantismo, a não ser que a conversa surja naturalmente, o que é bem improvável numa mesa de bar na sacanagem do santo relaxamento. Deixo os livros pra sala de aula, pros Congressos, pros debates em casa, pra orientações dos meus alunos e pras orientações com a minha orientadora.

No momento, embora tenha dois artigos pra escrever, meu mundo se resume em "peitos turbinados". E que venha dia 1 de julho.

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